Poema. Dona Doida.

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, 
com sombrinha infantil e coxas à mostra.

Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

30 de agosto. No exercício de ontem (já que passou a meia noite), no Galpão Cine Horto, brinquei com esse texto da Adélia Prado, que me apareceu numa madrugada da semana passada, e com os quatro elementos (terra, fogo, ar e água). As possibilidades desse poema foram como um temporal.

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